terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

COMPASSO DE ESPERA

 “Por isso o Senhor esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso se levantará, para se compadecer de vós; porque o Senhor é um Deus de equidade; bem-aventurados todos os que por ele esperam.” (Isaías 30:18)


Continuo a ter as minhas dúvidas de que o ser humano consiga resolver a situação de pandemia que se vive. Corre-se para os laboratórios para se descobrir uma vacina, esperando que ela acabe com este vírus, mas vemos que ele se desenvolve em novas estirpes, umas mais perigosas que outras. Continuamos a ouvir que a variante de A, X, ou Y é mais infecciosa ou mais contagiosa do que a primeira. E o ser humano continua a confiar na força, na capacidade e na inteligência dos cientistas, dos peritos, dos políticos. 


Certamente, um dia voltaremos ao normal, com o vírus controlado, mas não exterminado. E aí diremos que foi graças à ciência, graças aos médicos e enfermeiros, graças ao confinamento, graças às decisões políticas, graças a isto e graças àquilo. Não quero desprestigiar o trabalho de quem se tem esforçado além das suas capacidades físicas. Mas, o facto é que continuamos a confiar nos homens que têm a sua vida assegurada, enquanto os mais frágeis da sociedade continuam sem pão, sem leite, sem dinheiro para pagar as necessidades mais básicas para a sua sobrevivência.


Mas se falarmos de Deus, dizem-nos que isso é absurdo, irracional. Normalmente costumam perguntar: Por que é que Deus deixa morrer tanta gente? De que é que Deus está à espera? 

A releitura e estudo do livro de Isaías tem-me levado a refletir constantemente nesta situação. É facto assente que o profeta apresenta como palavra final de Deus a restauração, a salvação, a renovação dos povos e do mundo. Mas antes disso, temos sempre exortação, repreensão, denúncia do pecado, do desvio, da rebeldia, da mentira e da rejeição da lei do Senhor. O povo de Israel rejeitava a palavra do profeta, confiando mais nos opressores (como o Egipto) e estribando-se mais na perversidade. Então o profeta dizia: “Por isso esta maldade vos será como brecha que virá subitamente sobre vós e vos quebrantará e despedaçará. E sereis fugitivos e ficareis como o mastro no cume do monte” (cf. Is 30:8-17).


Desde o século passado, temos assistido a uma debandada de pessoas das igrejas. Os crentes deixaram de se interessar pelo estudo meticuloso das escrituras. Acabaram-se com as Escolas Dominicais, com os cultos de estudo bíblico e oração. Hoje em dia, a ida aos cultos é mera opção de escolha, hoje apetece-me ir, amanhã já não apetece. Hoje levantei-me com disposição para ir, amanhã apetece-me ficar na cama. E quando vamos, gostamos é de ouvir sermões ou mensagens que afaguem o nosso ego. Queremos discursos aprazíveis; queremos quimeras; queremos ouvir: “Vai ficar tudo bem”; queremos que nos digam que apesar de estarmos longe dele, ele está sempre connosco; queremos ouvir dizer que, apesar das injustiças, das falsidades, dos egotismos que vivemos, Deus é sempre amoroso e vai dar-nos aquilo que desejamos.


É tempo de acordar para a vida e saber que o compasso de espera de Deus vai durar o tempo que levarmos a esperar única e exclusivamente nele em cada e todos os momentos da nossa vida. As Escrituras não se cansam de afirmar que Iavé é um Deus de justiça. Mas este é o tempo de espera de Deus, pois Ele está à espera que o ser humano comece a esperar nele. Quando isto acontecer, então seremos pessoas felizes. 


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A PERSPECTIVA CANÓNICA DO LIVRO DE ISAÍAS



Uma das grandes questões levantadas pelos estudiosos sobre este livro profético está relacionada com a unidade do livro. Os estudos feitos levaram os eruditos a concluir que 

  1. o livro não segue uma ordem cronológica; 
  2. abrange um período histórico muito lato (desde o surgir do império Assírio até ao surgir do império Persa); 
  3. o livro é constituído por duas partes distintas em termos de linguagem, estilo e conceitos. 


Por isso, o campo académico tem-se dividido entre os que defendem a unidade do livro por um só autor e os que argumentam pela divisão do livro em, pelo menos, duas partes resultantes de dois autores diferentes. Presentemente, a grande maioria dos académicos concorda que o livro pode ser dividido em duas partes: a primeira atribuída ao profeta de Jerusalém antes do cativeiro da Babilónia (cap. 1-39) e a segunda atribuída a um profeta (talvez discípulo de Isaías) posterior ao cativeiro (cap. 40-66). 


Entretanto, os estudos feitos dentro de cada parte tem levantado ainda mais questões e levado à conclusão de que houve um trabalho editorial e redacional para tentar criar uma certa unidade. Mas não tem havido muito consenso entre os estudiosos. Segundo Brevard Childs, o método histórico-crítico tem criado mais problemas e menos soluções. Mas não é da opinião que se deve deitar fora todo o trabalho de investigação feito até agora. Ele acha que todas as tentativas de reconstrução histórica do livro, depois de estar desmantelado, não passam de tentativas e de hipóteses. A preocupação em se encontrar a linha histórica tem dificultado o exegeta em fazer passar a mensagem do mundo antigo para a contemporaneidade. Por isso ele prefere usar o método canónico para dar sentido a todo o livro de Isaías. Na sua perspectiva, esta é a solução hermenêutica mais radical, tendo em conta que a comunidade de fé para quem o livro de Isaías funciona como Escritura ainda procura uma compreensão unitária do livro.


Childs reconhece que o livro tem três partes (1-39; 40-55; 56-66), mas a sua configuração dentro do cânon é produto de todo um trabalho de um editor que procurou intercalar a mensagem de redenção e restauração, característica principal da segunda e terceira parte do livro, com a mensagem de julgamento e destruição, característica da primeira parte. 


Segundo este erudito, o contexto histórico deixa de ser fundamental para se dar ênfase ao contexto teológico e reflexivo. “O contexto teológico eclipsa completamente o histórico.” (pg. 326). Em relação à mensagem encontrada no Segundo Isaías ele escreve: “Uma mensagem que funcionava originalmente no contexto específico de exílio no meio do século sexto foi separada da sua situação histórica para se tornar completamente escatológica.” (pg. 326). Com isto ele quer dizer que o contexto do Segundo Isaías deixou de ser o do período pós-exílio para se tornar uma mensagem inserida no contexto do século VIII a fim de comprovar que as coisas passadas já eram e que novas coisas iriam ser declaradas (cf. 42:9). 


“Certamente perde-se a força de muitas imagens do Segundo e Terceiro Isaías se não se reconhecer a ligação com o Primeiro Isaías. O esquema de antes e depois, de profecia e cumprimento, providencia um suporte principal que une os testemunhos. A proclamação do perdão de Deus (40:1) é colocada em contraste com a sua ira anterior (1:5ss.; 3:1ss.; 42:25; 57:16). O tema de Jerusalém como a cidade abandonada (1:7ss.) é pegado em 62:4 e contrastado com a nova cidade da alegria. O Primeiro Isaías falara da falsa adoração de Israel; O Segundo Isaías fala da verdadeira adoração (58:6ss.). O padrão de ver os novos céus e a nova terra como o cumprimento de uma promessa antiga torna-se explícito em 65:25 com a citação de 11:6,9. Semelhantemente, a descrição da incitação de Deus a Ciro desde o norte (41:25) pega no mesmo verbo usado em 13:17 “suscitarei os medos…”. Na perspectiva canónica, a mensagem do Segundo Isaías da redenção final e decisiva de Deus para Israel não é qualitativamente diferente das profecias do Primeiro Isaías.” (pg 330). 


Para Brevard Childs, há, pelo menos, quatro implicações teológicas e hermenêuticas com a aplicação do método canónico.

a) O conhecimento da história da composição do livro força o intérprete bíblico sério a lidar com as questões teológicas do cânon, da comunidade de fé e espírito. A reflexão teológica é constitutiva da própria tarefa de interpretação.

b) A história é um meio importante da actividade de Deus, mas ela recebe o seu significado a partir da palavra divina e não vice-versa. Portanto, a estrutura redacional em que o material isaiânico funciona agora, longe de ser uma ficção histórica, é um testemunho de fé para a promessa e execução da salvação do povo de Deus.

c) A forma final da literatura providenciou uma estrutura completamente nova e não-histórica para a mensagem profética, que separou a mensagem das suas amarras históricas originais e tornou-a acessível para todas as gerações futuras. 

d) Tanto para a comunidade judaica como para a cristã a mensagem do Segundo Isaías não ficou atada ao século VI, mas foi entendida como uma aplicação de uma esperança escatológica para um Israel futuro. 

Se este método é o mais apropriado ou não para a interpretação do livro de Isaías só o tempo o dirá. O facto é que muitos exegetas começaram a usá-lo para tornar a mensagem bíblica mais actual.


Resumo feito a partir de Brevard S. Childs, “Isaiah”, em Introduction to the Old Testament as Scripture, London, SCM Press, 1983 (2ª impressão), 311-338.