quarta-feira, 5 de outubro de 2011

OS CONTRASTES DA EXISTÊNCIA

No dia 4 de Outubro, tive de me deslocar a Santa Maria da Feira para participar na cerimónia fúnebre em memória da minha tia Irene. Já o seu nome, proveniente da palavra grega eirênê, significa “paz”, pois também em paz ela morreu com os seus 90 anos (faria 91 em Janeiro do próximo ano). Ficarei para sempre com a imagem do sorriso encantador que ela tinha sempre que me via ou mesmo outra pessoa. Toda ela irradiava alegria e prazer em viver. Muitas vezes encontrava-a na sua casa agarrada à sua Bíblia. E dizia-me: “Estava a ler a Palavra”. Desde os seus 19 anos que ela conheceu a Jesus Cristo de uma forma mais pessoal quando partiu da antigamente conhecida Vila da Feira para o Porto. Ali conheceu aquele que veio a ser o ser marido (o Fernando). Posteriormente foram viver para Lisboa, e ali agregou-se à Igreja Evangélica da Assembleia de Deus, na Rua Neves Ferreira. Eu era muito pequeno quando o meu pai ganhou o segundo prémio de um concurso, que seria uma viagem para duas pessoas ou o dinheiro do valor da viagem. O meu pai preferiu o dinheiro para levar toda a família numa viagem a Lisboa. Era a primeira vez que eu ia a Lisboa. Claro, ficámos em casa da minha tia Irene. Posteriormente ela enviuvou e, passados alguns anos, casou com Amaro Policarpo, passando a viver na terra do marido em Manique, do concelho de Cascais. Eu e a minha irmã tivemos a oportunidade de passar férias em sua casa, e até chegámos a andar de cavalo. Isto é só para dizer que a minha tia transmitia uma alegria impressionante e uma serenidade pois, apesar de ser uma mulher de cidade, logo se adaptou à vida do campo sem qualquer preconceito. Ela estava sempre disposta a ajudar as suas vizinhas, pois a D. Irene até injecções sabia dar e gratuitamente, diziam. Ela aproveitava cada ocasião para dizer que Jesus também lhe tinha dado a salvação de graça para ter a vida eterna.


Agora, eu sei, ela está com o seu Senhor e Salvador a viver a vida eterna. Mas é principalmente nestes dias, infelizmente, que acabamos por encontrar familiares que não víamos há anos. Mais uma vez, esta foi a oportunidade para que os meus primos também ouvissem o testemunho sobre a tia Irene. Até a sua morte serviu para eu fazer esta reflexão e partilhar com todos os que ali se encontravam.

É nestas alturas que mais uma vez sentimos que nos encontramos perante uma encruzilhada, onde teremos de fazer uma escolha. É em circunstâncias de luto que somos levados a considerar a vida como um bem malfazejo. Apesar de ouvirmos muitas pessoas dizer “Que vida desgraçada”, todas gostam de viver, mas não de envelhecer. Todos gostam de viver, mas não sofrer. Todos gostam de viver, mas não de se deparar com a morte. A nossa existência, porém, coloca-nos nesta situação - a dos contrastes. Em tudo, nós encontramos esses contrastes. Começamos com o contraste entre o dia e a noite, continuamos nos contrastes entre o frio e o calor, entre o seco e o húmido, entre o correr e o caminhar, entre a riqueza e a pobreza, entre o acreditar e o desacreditar, entre a alegria e a tristeza, entre o bem-estar e o sofrimento, e terminamos com o contraste entre a vida e a morte.

No entanto, parece que na nossa sociedade há alguns especialistas que nos querem fazer crer que não precisamos de viver esta ambivalência, pois apontam para uma filosofia de vida que se resume a tudo o que seja apenas matéria. Fazem-nos correr de tal maneira que não temos tempo para nada. Mas este nada acaba por ser relativo, pois temos tempo para aquilo que nós queremos apenas. Achamos que temos só uma vida e por isso temos de a viver na plenitude, porque uma vez morto acabou-se. Tal pensamento é um pensamento mesquinho, redutor. É considerar o ser humano abaixo de qualquer animal. Na realidade, quer-se é evitar o encontro com a morte. É não querer acreditar que existe um Deus criador e sustentador do universo, para o qual o ser humano se deve voltar, porque é só nele que encontra a verdadeira razão da sua existência. A azáfama, as preocupações da vida tiram-nos tempo para reflectirmos sobre a morte.

A morte é o estigma da nossa limitação. Perante ela só podemos concluir que somos finitos. Perante ela só podemos reconhecer que não somos senhores da vida que temos. Esta realidade, porém, não deve levar-nos a pensar que afinal não servimos para nada. Pois Deus na sua infinita misericórdia transmitiu-nos uma mensagem de esperança, uma mensagem de vida e vida plena. No centro dessa mensagem está a pessoa de Jesus Cristo, o qual vimos não como um excelente filósofo, nem como um bom ser moral, nem como um benfeitor apenas, mas sim como a evidência clara da existência de Deus, porque ele mesmo era o próprio Deus que se fez humano, para se identificar connosco. A mensagem de Jesus é que após a morte há vida. Ele provou-o com a sua própria ressurreição.

Foi por isso que o apóstolo Paulo escreveu um belíssimo tratado sobre a ressurreição em 1 Coríntios 15, onde, a certa altura ele escreve: "Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem." (1 Cor. 15:20).

Chega de tempo em que pensámos que a vida se reduzia àquilo que vemos. Agora é o tempo de pela fé aceitarmos que Cristo está vivo, porque muitos cristãos na antiguidade o puderam confirmar. Este tempo é tempo de esperança, de confiança, de certeza para aqueles que morrem em Cristo. A ressurreição de Cristo é a segurança de que nós também seremos ressuscitados. Ele foi o primeiro.

Agora, para o cristão, aquele que crê em Cristo Jesus, já não predomina o binómio vida (-) morte, mas sim morte (+) vida. A nossa existência já não é um contraste entre a vida e a morte, pois o contraste é feito na ordem inversa, a morte com a vida. Antigamente o ser humano perguntava: O que é a vida se tudo acaba na morte? Agora, o cristão proclama: O que é a morte, se em Cristo seremos ressuscitados? É no plano do que é humano que ambas se realizam. Se a morte se concretiza num ser humano, a vida também se concretiza no ser humano. Por isso, a morte não é fim de todas as coisas. Ela existe para que possamos acreditar mais naquele que é o Senhor da vida.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Para se Entender a Bíblia

Com a disciplina de Introdução à Filosofia, comecei a ficar fascinado pela forma como devíamos pensar as coisas à nossa volta. Apesar de ter crescido num ambiente evangélico, onde se preconizava a importância de uma fé viva e dinâmica, reconheço que as ideias do iluminismo fizeram mossa nas ideias que foram sendo exaradas na minha mente de criança. Mas, como acontece com toda a gente, chega a altura em que já não dá para acreditar mais no Pai Natal invisível, porém, pintado com as cores da coca-cola. É preciso dar uma explicação para as prendas que surgem debaixo da janela. As dúvidas cartesianas ocorrem, e para cada resposta a uma pergunta levanta-se nova pergunta num encarreirar sem fim. Foi assim que enveredei pelo estudo da teologia. Terminada a licenciatura em Portugal, muitas questões continuaram a brotar no meu interior, porque tinha recebido uma formação muito ortodoxa e até fundamentalista. Eu não podia duvidar daquilo que estava escrito na Bíblia. tinha de aceitar pela fé, sem qualquer outro tipo de explicação. Então no que dizia respeito ao Antigo Testamento, muitas vezes ficava sem argumentos perante aqueles que questionavam as histórias ali escritas que por mim eram defendidas como factos históricos. Tendo decidido continuar os meus estudos teológicos na Suíça, encontrei uma outra postura de ensino que dava sentido e explicação lógica às perguntas que eu fazia.
Um dos livros que me ajudou na compreensão do Antigo Testamento, foi a obra de Otto Kaiser, Introduction to the Old Testament, publicado em 1969, na Alemanha, e traduzido para o inglês em 1975. Que eu saiba não há tradução em português. Por isso resolvi traduzir para aqui um pequeno trecho do seu capítulo "Introdução" (p. 1-3), que certamente ajudará os leitores que tenham dificuldade em aceitar o texto bíblico como palavra de Deus para nós hoje.
"A dificuldade do leitor actual da Bíblia é uma de dois tipos. Ele pode acreditar que sabe exactamente como e em que circunstâncias Deus se revelou na história de Israel e na história de Jesus porque, um livro inspirado por Deus, dá-lhe informação acerca disto, a qual está livre de contradição e lacunas. Neste caso, muitas vezes, ele é compelido de todo, no interesse das suas ideias pré concebidas, a ignorar os detalhes individuais, e se lhe apresentam tensões e contradições, a procurar, com vários graus de uma boa consciência, subterfúgios que lhe permitam manter este ponto de vista. Ou, por outro lado, ele pode ver neste livro apenas uma colecção complicada de documentos de uma fé antiga, de cuja infantilidade, crê ele como homem da idade do iluminismo, ele se encontra acima, sem levantar a questão, ou mesmo suspeitar, quão profundamente os nossos modos ocidentais de pensamento foram influenciados por este livro, e quão grande esta influência se deu até ao primeiro trimestre deste século (XX) do que é agora. A aparente estranheza e afastamento impedem-no de ver que a reivindicação feita aqui para testemunhar de Deus teria, ainda hoje, uma força e uma vida desconhecida. estes dois tipos de dificuldade, no nosso ponto de vista, resultam do facto de que vivemos numa época que pensa historicamente, e compreende o curso da história nas suas ligações temporais e factuais. Depois que saímos da infância, não conseguimos encontrar um acesso honesto para um livro que vem de séculos passados, na verdade de milénios, que não partilha estas (para nós óbvias) pressuposições de pensamento, a menos que sejamos informados, adequadamente, sobre a sua origem histórica e sobre o mundo de onde ele vem. Por esta razão, um conhecimento da formação da Bíblia é um pré-requisito inevitável para a compreendermos. Isto é verdade para cada leitor da Bíblia, uma vez que o conhecimento histórico e técnico se tornou propriedade comum através da disseminação da educação e dos meios de comunicação, mas é especialmente assim para aquele que deseja tornar inteligível a outros homens a reivindicação da Bíblia em dar testemunho da palavra de Deus.
Para se ouvir e compreender o testemunho do livros bíblicos correctamente, é necessário saber em que alturas e em que circunstâncias eles passaram a existir. Isto envolve um conhecimento de história, de religião e de teologia de Israel e do judaísmo, assim como do mundo do qual eles surgiram. Supunha-se que uma 'Introdução ao Antigo Testamento' lidasse, consequentemente, com tudo o que é necessário para a sua total compreensão. No decorrer do desenvolvimento da erudição, este título tem, de facto, chegado a cobrir uma concentração sobre o tratamento dos problemas literários, dos géneros (ou tipos) de literatura, da composição e formação dos livros individuais e da transmissão do texto e origem do Cânon. Há, obviamente, razões práticas para isto, na medida em que seria um absurdo tentar tratar todos estes assuntos numa simples palestra ou num só livro com vários volumes. Juntamente com as Introduções ao Antigo Testamento também há obras sobre a língua hebraica e aramaico, sobre o mundo do Antigo Testamento, sobre a arqueologia e geografia bíblicas, sobre a história, a religião e a teologia de Israel, sobre a história subsequente do Antigo Testamento na igreja cristã e, finalmente, sobre hermenêutica, como assuntos independentes. Todas estas disciplinas dependem, em maior ou menor grau, da exposição detalhada de versículos individuais, de secções e de livros do Antigo Testamento, que em trabalho de erudição contemporâneo e, sem dúvida, também em trabalho futuro, elas avançam quase tanto como são desenvolvidas por ele. Elas criaram, por referência aos resultados da exegese, uma estrutura para a compreensão das passagens individuais. E elas mudam na medida em que esta compreensão se altera e, espera-se, cresce à medida que se altera."
Esta também é a minha convicção. Antes de lançarmos um repto ao texto bíblico precisamos de o compreender, e para o compreender precisamos de utilizar várias ferramentas das diversas áreas: literária, sociológica e histórica. No final de tudo isto, certamente conseguiremos entender o que o escritor, inspirado por Deus, quis transmitir à sua geração e consequentemente a cada um de nós hoje. Vale a pena procurar entender a Bíblia, porque nela encontramos princípios divinos para a nossa vida, que nos trarão muita felicidade e razão de viver.