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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O CENTURIÃO DE CAFARNAUM

(Mateus 8:5-13; Lucas 7:1-10)


Esta história contada por estes dois evangelistas é um verdadeiro desafio à nossa fé. Quando colocamos os dois textos lado a lado, surgem-nos várias perguntas que põem em causa, provavelmente, a veracidade do acontecimento. 

Mateus fala do rapaz do centurião (a palavra grega pais, paidós também pode ter o sentido de “filho”; cf. João 4:49-51), enquanto Lucas fala de servo (palavra grega doulos que significa “escravo”). Mateus diz que o rapaz está paralítico e muito queixoso, enquanto Lucas diz que o servo está às portas da morte. Mateus relata que o próprio centurião foi ter com Jesus, enquanto Lucas relata que o centurião enviou uns anciãos dos judeus que apresentam razões para Jesus conceder o pedido ao centurião. Mateus informa que Jesus decide ir curar o rapaz e o centurião o impede. Lucas, por sua vez descreve que Jesus ia com os anciãos e, quando se aproxima da casa, o centurião envia uns amigos para o impedirem de entrar em casa.

No entanto, há elementos comuns aos narradores: a existência de um centurião em Cafarnaum que tem alguém doente e que pede a Jesus para o curar; entretanto diz a Jesus que não se acha digno de que o Senhor entre em sua casa; por isso, pede-lhe que diga uma palavra para haver cura; Jesus fica admirado com tamanha fé que não se encontra em Israel. 

O interessante é que as palavras do centurião e de Jesus são praticamente copiadas a papel químico. Lucas tem umas palavras a mais que servem de justificação para o impedimento a que Jesus não entre em sua casa, “não te incomodes… por isso nem ainda me julguei digno de ir à tua presença”. 

Haveria razões suficientes para apontar o dedo e dizer que nem os próprios evangelistas se entendiam a contar as histórias sobre Jesus. Por isso, alguns dizem que estas histórias foram inventadas pelos homens. Outros dizem que a Bíblia está cheia de contradições. E ainda há quem tente harmonizar os textos dizendo que Lucas é que tem a história toda e Mateus limitou-se a omitir a presença dos anciãos e dos amigos. Até poderia ser o caso, mas há outras diferenças que não se explicam tão facilmente. Veja-se como Mateus tem palavras de Jesus a seguir à constatação da fé (v. 11-12), as quais aparecem em Lucas num contexto e ordem diferentes (cf. Luc. 13:28-29). 

Foi por causa das diferenças existentes no relatos que os estudiosos em finais do século XIX e inícios do século XX começaram a lançar propostas de interpretação que clarificassem o sentido dos textos. Segundo os eruditos, principalmente com Bultmann, depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, a igreja começou a criar fórmulas associadas à sua confissão de fé. Muitas das fórmulas repetiam a ipsissima verba de Jesus. É evidente que esses ditos tinham um contexto histórico no tempo de Jesus, mas a igreja quis aplicar essas mesmas palavras a situações que se viviam no seu tempo, isto é, passado décadas após a ascensão de Jesus. Assim surgiu a área de investigação denominada “História da Tradição”. As narrativas e os ditos de Jesus tiveram um momento real, mas a igreja ao narrar os episódios foi adaptando-os ao seu contexto vivencial de forma a contextualizar a mensagem que Jesus transmitiu durante o seu ministério. 

É por esta razão que esta história do centurião de Cafarnaum foi transmitida com variantes. Mateus conheceu uma variante e Lucas outra. No entanto, ainda assim cada um colocou o seu cunho, a sua característica no relato. O âmago da história está na ênfase dada à relação entre um gentio (o centurião romano), o povo de Israel e Jesus. Os desenvolvimentos da história levam-nos a concluir que no processo da transmissão determinados elementos são divergentes, quer tenham sido por causas naturais ou por desígnio teológico, e que “o grau de divergência é demasiado significativo para ser ignorado” (Dunn, Unity and Diversity in the NT, 72s.).

Mateus pega neste episódio, que lhe chegou por via da tradição, e aplica-o à vida da sua igreja, constituída predominantemente de judeus. O evangelista quer mostrar que o poder de Jesus se manifesta também a quem não pertence à “elite”, isto é, ao povo judeu. A identificação da doença do rapaz do centurião como paralisia relembra o sumário de Mateus em 4:23-24. Os paralíticos estão inseridos na mesma lista que visa o ministério de Jesus não só para os judeus, mas também para os gentios de todas as partes. Se os judeus pensavam que a profecia de Isaías (53:4) se aplicaria apenas aos judeus, Mateus mostra que não é assim, como se pode ver em 8:17. Para este evangelista, Jesus é o verdadeiro intérprete das Escrituras, porque fala com uma solenidade incrível quando usa a expressão “Na verdade” (amên) (v. 10). Desta forma, Mateus faz com que Jesus se dirija aos judeus e não ao centurião. Em Israel, ele não encontrou uma única pessoa que tivesse uma fé semelhante à do centurião. 

Os versículos que se seguem (11-12) mostram a ênfase que Mateus quer dar. Segundo Schweizer (Matthew, 215), o milagre não é a questão central da narrativa, mas sim o aviso para aqueles que se escudavam na ideia de que eram filhos de Abraão e que, por isso, estariam no reino dos céus. Sobre a fé do centurião, Rene Latourelle escreveu: “Mateus introduz, na fé do centurião, certos elementos que, no tempo do evangelista, definiam o acesso ao cristianismo, a saber: reconhecer em Jesus o messias e salvador da humanidade; comprometer-se a segui-lo com uma fidelidade incondicional a fim de entrar no reino dos céus” (Milagros de Jesus y Teologia del Milagro, 280s.). Quem não tem uma fé como a que o centurião demonstrou não fará parte do banquete que se realizará no reino dos céus. Todos os israelitas que não crêem que Jesus é o Senhor que veio cumprir a Lei e os profetas “serão lançados nas trevas exteriores”. A salvação não depende da raça, nem da herança, nem da genealogia, nem da nação. A fé é uma atitude que se desenvolve na relação com o Senhor sem se exigir a sua presença física ou palpável. O Senhor atua mesmo à distância. 

Lucas, no diálogo entre Jesus e o centurião, tem praticamente as mesmas palavras, embora faça alguns acrescentos. O termo usado para “criado” (v. 7) é o mesmo que Mateus usa (pais). Mas no desenvolvimento da história, ele usa constantemente a palavra “servo” (doulos) (vv. 1, 3, 10). Leva-me a crer que Lucas quer demonstrar como a fé produz uma atitude diferente na relação entre patrão/escravo. Lucas é o evangelista que mais fala dos desfavorecidos, dos pobres, dos marginalizados. A sociedade não se preocupa(va) com a situação dos subordinados. Neste caso, vemos um centurião que, tendo um escravo às portas da morte, em vez de o deixar morrer manda uma delegação de judeus a rogar a Jesus que viesse salvá-lo (diasôdzô). Ainda que esta palavra tenha um sentido físico tendo em conta o final do versículo 10, já poderá ter a conotação espiritual. Quem se importaria com a condição física ou espiritual de um subalterno seu? Só quem tem uma fé relacional com o Senhor Jesus. Lucas informa-nos que o centurião ouviu falar acerca de Jesus (v. 3). Certamente, aquilo que ele ouviu sobre Jesus fez com que ele cresse que Jesus era o Senhor que poderia salvar o seu servo (escravo), assim como também fez com que ele tivesse uma atitude diferente para com os seus empregados. Quem tem fé em Jesus preocupa-se com o bem-estar daqueles que lhe são subalternos. 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

MEDICINA E MILAGRE

E tirando-o à parte de entre a multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e, cuspindo, tocou-lhe na língua. E, levantando os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá, isto é, abre-te.” (Mc 7:33-34)

Estes versículos fazem parte do episódio sobre a cura que Jesus realizou a um surdo, narrado no Evangelho de Marcos. Segundo Bultmann, este relato faz parte do material narrativo que a tradição cristã foi desenvolvendo a fim de transmitir a mensagem de salvação para o ser humano através de Jesus Cristo. É evidente que para ele o que importa é ver nesta história, designada por História de Milagre, um apelo a uma decisão existencial por parte da pessoa que lê ou ouve o relato. Portanto, as histórias não têm um propósito biográfico no sentido estrito para a vida de Jesus. Diz ele que, “os actos miraculosos não são provas do seu carácter, mas da sua autoridade messiânica, ou do seu poder divino” (History of the Synoptic Tradition, Herper & Row, 1976, 219). Deste modo, as histórias são trabalhadas de forma a fazerem as pessoas crer que Jesus é o Messias. Com este pensamento, ele não está muito preocupado com a historicidade dos acontecimentos e chega mesmo a considerar que dificilmente se poderá encontrar o que é que aconteceu historicamente debaixo da capa editorial dos evangelistas.

A maioria dos seus alunos, porém, conseguiu demonstrar que é possível encontrar o cerne histórico que deu origem depois à proclamação da fé. Para isso, começaram a estabelecer um programa criteriológico que desse consistência à convicção dos actos históricos de Jesus. Um dos critérios utilizados para apurar a historicidade dos milagres de Jesus é o que se chama de “Critério do Constrangimento” (John P. Meier, Um Judeu Marginal, Imago, 1993, 170). Com este critério, os estudiosos querem dizer que o evangelho tem relatos que criam dificuldades à igreja primitiva. Portanto, se a igreja estivesse preocupada em criar histórias fantásticas, nunca iria criar aquelas que iriam fazer o efeito contrário.

Neste relato, por exemplo, nós lemos que Jesus praticou uma série de actos que provocariam uma certa repugnância e nojo nas pessoas. O verbo “cuspir” está associado ao verbo “tocar”. A tradução da Sociedade Bíblica de Portugal em português corrente diz: “Pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe na língua com saliva”. Também poderíamos traduzir: “e tocou-o cuspindo-lhe na língua”. Para quem queria apresentar um ser divino, por que haveria de mencionar uma coisa que criaria um sentimento de repugnância? O facto é que Mateus e Lucas, que estruturaram os seus evangelhos a partir do de Marcos, omitiram por completo este episódio. Terá sido por isso? Vários manuscritos procuraram outras posições para o verbo “cuspir”, colocando-o ora antes do verbo “pôr” ora depois (Vincent Taylor, The Gospel According to St. Mark, Baker Book house, 1981, 354). Mas o texto mais original mantém o verbo associado ao “tocar na língua”.

Outro elemento quer dá garantias de que este episódio é real é o facto de que estas acções eram muito comuns como técnica dos curandeiros gregos e judeus. Tácito e Suetónio escreveram que o imperador Vespasiano curou um homem com cuspo. Josefo, na sua obra Antiguidades, conta muitas histórias de homens que faziam curas semelhantes. Portanto, no ambiente palestino havia estas práticas que incluía: levar o doente para um lugar à parte, o toque com as mãos, o uso da saliva com poderes terapêuticos e o encorajamento verbal numa língua diferente. Ainda que o aramaico fosse a língua falada no tempo de Jesus por muitos judeus, o texto bíblico foi escrito em grego, e por isso o escritor deixa ficar o termo efathá. A realidade é que Jesus usou as técnicas correntes na sua época. Uma pequena diferença que encontramos no texto é o facto de Jesus olhar para o céu. Jesus podia usar a medicina convencional, mas não deixava de ensinar que mesmo assim a cura vem de Deus. O milagre dá-se na pessoa, que não consegue obedecer à proibição para não divulgar o que aconteceu. Os versículos 35 a 37 são certamente elementos de redacção do evangelista que acaba por usar um vocabulário diferente, para mostrar o que acontece na vida interior de uma pessoa que se encontra com Jesus.

Em conclusão, perante este episódio na sua tradição mais antiga e fidedigna com o que aconteceu, aprendemos que não há incompatibilidade entre a medicina e o milagre, porque apliquem o que aplicarem, usem o que usarem, Deus é quem tem a última palavra no processo. Efatá!