

Certamente, os cristãos judeus continuavam a pensar que os samaritanos e até os gentios só teriam direito à salvação se guardassem os preceitos judaicos, ou, por outras palavras, as suas tradições, cultura e pensamentos. Lucas, porém, quer ajudar estes crentes a não serem sectários, mas a saberem viver com todas as pessoas, ainda que tenham origens diferentes. Logo no versículo 11, ele descreve Jesus como aquele que está entre dois povos para os unir (passa entre [em grego: meso] Galileia e Samaria). Dos dez leprosos, esperava-se que pelo menos os judeus voltassem para dar glória a Deus, mas, pelos vistos, preferiram ficar em casa, satisfeitos com a sua limpeza cerimonial. De acordo com alguns eruditos, parece que havia mais samaritanos do que judeus no tempo do Novo Testamento (cf. J. Bowman, The Samaritan Problem, Pittsburgh Theological Monograph Series, No. 4, 2004), o que fazia a diferença na propagação do evangelho. Eles também faziam parte do plano de Deus.
Transpondo esta lição que Lucas dá ao povo judeu para os nossos dias, gostaria de expressar a minha tristeza quando ouço algumas pessoas reclamarem que as nossas igrejas estão cheias de “estrangeiros”. Ainda bem que são só algumas. No entanto, é necessário colocar o dedo na ferida e dizer que, se não fossem estes “alógenos”, os pastores não teriam ninguém a quem dar o estudo bíblico no culto da semana, porque os portugueses estão cansados demais para saírem de casa. Se não fossem estes alógenos que “invadiram” as nossas igrejas, não havia pessoas para o louvor, para a música, para a liderança, para a evangelização e outras actividades das igrejas. Graças a Deus por estes alógenos que se juntam a nós para louvar a Deus em alta voz. Não queremos colocar a inscrição de aviso que os judeus tinham à entrada do templo nas nossas igrejas, porque em Jesus Cristo não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher. O que é preciso é encaixar tradições e culturas diferentes umas nas outras e formar um só povo que louva a Deus e testemunha do Seu amor.